Thursday, April 26, 2007

Alcoólatra

O pai bebia todos os dias. A mãe também.
Mas ele bebia todos os dias e o dia inteiro. E ela só à noite. Pra relaxar.
A menina então, passou a chorar todo dia também. Em cada copo de cerveja e em cada dois dedos de cachaça, tinha uma ou duas lágrimas da menina.
A menina não tinha mais brilho nos olhos pra nada. Não ia a escola. Não brincava. Só chorava.
A menina viu na tevê que beber todo dia fazia mal. Por isso a menina chorava.
Ela não queria que a mãe e o pai ficassem mal.
Mas a menina bebia também.
E ela se sentiu mal por chorar tanto.
Primeiro porque ela bebia. E segundo porque chorar de nada adiantaria.
A menina viu na tevê que chorar não fazia o pai e a mãe parar de beber.
Então a menina tentou não chorar e não beber mais.
Mas a menina gostava de beber. Não todo dia. Mas ela gostava.
Então a menina percebeu que o pai e a mãe também gostavam.
Nesse dia ela amou o pai e a mãe com muita força.
Amou para pedir desculpas pelas lágrimas. Por mais que as lágrimas ainda rolassem quando ela lembrava que beber fazia mal.
A menina bebia pouco. A mãe bebia médio. E o pai bebia muito.
A menina não era alcoólatra.
A menina viu na tevê que quem bebe pouco todo dia, é mais alcoólatra do que quem bebe muito só que de vez em quando.
A menina perguntou o que era alcoólatra.
E quando descobriu, a menina chorou.

Tuesday, April 24, 2007

Mulher

Mulher é uma palavra cheia de conotação.
A mãe, a guerreira, a vadia, a esposa, a boazuda, a vizinha chata, a professora mal comida, a namorada de um amigo meu...
São tantas as mulheres que permeiam o imaginário masculino (e o feminino também! Só depende do contexto.) que às vezes perde-se o norte.

Homem não vive sem mulher. Isso é fato.
Mas a te que ponto a mulher vive sem o homem?!
Isso vai além das idéias de reprodução independente e tampouco, é uma apologia à idéia de sexo frágil. Longe de mim, fazer desse texto um discurso sobre a famosa “guerra de sexos” (por mais que tenhamos vivido em guerra nos últimos dias).

As mulheres não vivem sem seus homens. Sejam elas, a vizinha, a prima, a boazuda. Salvo, é claro, as exceções: algumas freiras, as lésbicas e a minha mãe.
Mas todas as mulheres – mulher mesmo, que tem todas as responsabilidades, todas as dores, toda a sensibilidade – não vivem sem um homem.

É necessária toda a dedicação e atenção dispensada, a saliva, a voz gasta nas horas intermináveis de discussão, os calos e queimaduras nos dedos na hora da refeição e da roupa lavada, as dores de cabeça, os afagos e chamegos mais a preocupação na dor, o filho que chora, o relógio que acelera...

É necessário tudo isso?! As mais independentes gritam. É sim.
Toda mulher não vive sem seu homem... para ser mulher.
Porque mulher é a mãe, a guerreira, a vadia, a esposa, a boazuda, a vizinha chata, a professora mal comida, a namorada de um amigo meu...
Quem nunca lavou uma peça de roupa dele, pegou uma latinha na geladeira ou colocou uma roupinha sexy naquelas horas, que atire a primeira pedra!

Friday, April 06, 2007

A arte da gostar de mulher.

"Ainda nos meus tempos de graduação em jornalismo na UERJ, fui assistir a uma palestra do fotógrafo André Arruda, que foi do JB, Globo e trabalhava, entre outras coisas, com moda. Em determinado momento da palestra ele relatava a sua experiência em fotografar nu artístico e soltou a seguinte frase:
"...para fotografar nu feminino é preciso gostar de mulher". Eu sorri,porque na minha cabeça aquilo parecia meio óbvio, mas antes que qualquer um fizesse algum comentário ele completou.
"Não se trata de gostar de mulher no sentido sexual, ter tesão por mulher nua, essas coisas. Isso pode ter também. Mas se trata de gostar de mulher em um sentido mais profundo. Gostar do universo feminino. Observar que cada calcinha é única, tem uma rendinha diferente e ficar entretido com isso", afirmou.
O fato é que eu concordo com o conceito do Arruda sobre gostar de mulher. Não basta ser heterossexual, o machão latino. Para gostar de verdade de uma mulher são necessários outros requisitos que são raros. Por isso a mulherada anda tão insatisfeita.
Sensibilidade é fundamental. Paciência também. O homem que não tem paciência para escutar a necessidade que a mulher tem de falar, ou sensibilidade para cativá-la a cada dia não gosta de mulher. Pode gostar de sexo com mulher. O que é bem diferente.
Gostar de mulher é algo além, é penetrar em seu universo, se deliciar como com que ela conta todo o seu dia, minuto por minuto, quando chega do trabalho. Ficar admirando seu corpo, ser um verdadeiro devoto do corpo feminino, as curvas, o cabelo, seios. Mas também cultuar a sagacidade feminina, sua intuição, admirar seu sorriso que é muito mais espontâneo que o nosso.
Gostar de mulher é querer fazer a mulher feliz. Levar flores no trabalho sem nenhum motivo a não ser o de ver seu sorriso. É escutar pacientemente todas as queixas da chefa rabugenta, que provavelmente é assim porque seu homem não gosta de mulher.
O homem que gosta de mulher não está preocupado em quantas mulheres ele comeu durante a vida, mas sim com a qualidade do sexo que teve. Quantas mulheres ele realizou sexualmente, fazendo-as se sentirem desejadas, amadas, únicas, deusas, na cama e na vida.
O homem que gosta de mulher não come mulher. Ele penetra não só no corpo, mas na alma, respirando, sentindo, amando cada pedacinho do corpo, e, é claro, da personalidade.
"Para viver um grande amor é necessário ser de sua dama por inteiro", afirmou Vinícius de Morais no poema "Para viver um grande amor". Para amar verdadeiramente uma mulher o homem deve ser totalmente fiel, amá-la até a raiz dos cabelos. Admirá-la, se deixar apaixonar todo dia pelo seu sorriso ao despertar e principalmente conquistá-la, seduzi-la, como se fosse a primeira vez. O homem que não tem paciência, nem tesão, nem competência para lhe seduzir várias e várias vezes, esse, minha amiga, não se iluda, não gosta nem um pouco de mulher.
Conquistar o corpo e a alma de uma mulher é algo tão gratificante que tem que ser tentado várias vezes. Só que alguns homens, os que não gostam de mulher, querem conquistar várias mulheres. Os que gostamos de mulher é que conquistamos várias vezes a mesma mulher. E isso nos gratifica, nos fortalece e nos dá uma nova dimensão. A dimensão da poesia, do amor e em última instância do impenetrável universo feminino. Mas atenção amigos que gostam de mulher: gostar de mulher e penetrar em seu universo não é torná-las cativas e sim libertá-las, admirá-las em sua insuperável liberdade.
Uma das músicas com que mais me identifico é uma em inglês, por incrível que pareça, para um nacionalista e anti-imperialista convicto. É a "Have you really loved a woman?", do cantor Bryan Adams. A música foi tema do filme Don Juan de Marco, e em uma tradução livre quer dizer "Você já amou realmente uma mulher?".
Em toda a música o cantor fala sobre a necessidade de se conhecer os pensamentos femininos, sonhos, dar-lhe apoio, para amar realmente uma mulher.
Essa música é perfeita. Como se vê, gostar de comer mulher é fácil. Agora gostar de mulher é dificílimo. Precisa ser macho de verdade para isso. Quem se habilita?"
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Essa crônica é do Rafael Martí, um jornalista que se diz gostar muito de mulher! Pra pedidos de casamento, aqui vai o email dele: rafaelmarti@globo.com.
:D